Maratona de Chicago

"Essentially, we distinguish ourselves from the rest. If you want to win something, run the 100 meters. If you want to experience something, run a marathon. (Emil Zatopek)

Tudo se iniciou em dezembro de 2005, quando comecei a treinar na STARK. Naquela época, era impossível imaginar que, algum dia, eu iria concretizar o sonho de correr uma maratona (42.195 metros). Em setembro de 2006, concluí a minha primeira Meia Maratona do Rio de Janeiro e, no final do meu relato, comentei: "Superei mais um objetivo e vou começar a definir outros... e, quem sabe, algum dia, não faço uma maratona."

Num domingo, dia 9 de março de 2008, conversei com a minha esposa e decidi fazer a inscrição para a maratona de Chicago. Optei por correr essa maratona, porque acreditava que seria algo magnífico realizar meu sonho, correndo em uma das cinco maiores maratonas do mundo.

Muitas pessoas não têm a noção exata da distância percorrida em uma maratona e, possivelmente, a maioria acha que é impossível correr uma maratona. Realmente, 26.2 milhas ou 42.195 metros é uma grande distância e fica difícil imaginar como é possível correr tudo isto.

O recorde atual da maratona é Haile Gebrselassie, da Etiópia, com o tempo de 02:03:59. Ele completou a maratona de Berlin no dia 28 de setembro de 2008.

Recomendo a quem também deseja correr uma maratona, que comece fazendo logo a inscrição, pois, mesmo com o limite de 45.000 inscrições, a maratona de Chicago encerrou as inscrições três meses antes da corrida. No Brasil, ressalto, como uma maratona interessante, a de Porto Alegre, onde o clima é bem agradável para esse tipo de corrida. No exterior, além de Chicago, as maratonas mais famosas são de Nova York, Berlin, Londres e Boston.

Este ano, tive a oportunidade de fazer uma viagem de estudos, com toda minha família, para Ottawa, no Canadá. Cheguei a Ottawa no dia 15 de junho de 2008, cerca de cinco meses antes da data da maratona. Eu precisava realmente de muita força de vontade para iniciar os treinos preparativos para correr minha primeira maratona. Procurei me dedicar ao máximo aos treinos e consegui seguir bem a planilha enviada pela STARK. Veja mais sobre os meus treinos em: Treinando para a minha primeira Maratona

Depois de meses de treinamento, estava me sentindo preparado e defini uma meta pessoal de correr abaixo de 4 horas. É importante não definir metas impossíveis, mas, pelo meu treinamento, essa seria uma meta possível.

Um dia antes da prova, o Wander, meu cunhado, também da STARK, foi me deixar no aeroporto de Ottawa, de onde parti, rumo a Chicago, com toda minha família (Luciana, Gabriel e Tiago), num avião (importante) 100% brasileiro, o EMBRAER 170. Chegamos a Chicago no início da tarde e fomos logo pegar o kit da corrida. Comecei a perceber a organização da prova na entrega do Kit: sem filas e super rápido. Almoçamos no local de entrega, onde assisti a uma palestra motivacional patrocinada pelo fabricante do Gatorade.

Na noite de sábado, fomos a um restaurante italiano (bice), comer uma deliciosa massa. No jantar, estavam os maratonistas da STARK e foi um momento muito descontraído para todos. Eu estava tranqüilo. Lembro-me que me perguntaram se eu estava nervoso e eu respondi: “é impossível não ficar um pouco nervoso, mas estou bem preparado e vou fazer uma ótima prova”. Estava realmente super motivado e confiante. Isso é fundamental para se fazer uma boa prova.

Ao chegar ao hotel, preparei tudo, coloquei o número na camiseta, separei as meias, o short e o tênis. Na minha “bag” de corrida coloquei sete accel gels e seis thermolytes. Além disso, procurei me hidratar bastante e, antes de dormir, tomei um gatorade e bastante água. No dia da prova, acordei cedo, preparei meu “shake” de proteína e tomei, juntamente com o shake, o endurox Excel. Estava bem confiante e me despedi da Luciana dizendo: “vejo você no final da corrida com a medalha no peito”. Ela disse para eu tomar cuidado, não exagerar, não forçar... e eu falei: “não se preocupe, vai dar tudo certo”.

Fui ao encontro dos meus colegas da STARK e partimos todos confiantes para a linha de largada. O clima estava agradável, mas já sabíamos que seria um dia quente. Havíamos recebido o alerta “amarelo” da prova, informando que realmente seria um dia quente. Eu, que havia treinado num clima mais frio, estava um pouco preocupado, mas como bom cearense, tinha certeza de que iria suportar bem o calor.

No local da largada, despedi-me dos meus colegas desejando boa sorte a todos e fui para o curral D, de onde eu iria largar. Baseado no tempo de meia-maratona ou maratona, as pessoas podem se qualificar para os currais, onde existe um local especifico de largada. No caso de Chicago, ficam 12.000 pessoas nos currais e depois vem o restante dos corredores.

Exatamente às 7h45 eu estava na fila do banheiro. Ouvi algumas pessoas conversarem sobre a prova do ano passado, comentando sobre o calor que fez em 2007. Nessa hora, ouvi o hino oficial dos Estados Unidos. Fui apressado para o local de largada (já eram quase 8h) e exatamente às 8h é dada a largada. A largada da maratona de Chicago. Comecei caminhando e levei alguns minutos para chegar ao marco zero de partida da maratona Eu estava realmente super animado, músicas agitavam a largada e, ao passar pelo tapete, todas as pessoas começavam a correr.

Comecei a prova super tranqüilo, sabendo que não podia forçar muito no começo (essa foi a principal dica que me foi dada por alguns maratonistas). Procurei, então, seguir um ritmo confortável e não me preocupei com os outros corredores. Nos primeiros quilômetros, passamos por alguns túneis e duas coisas me impressionaram: primeiro, a beleza da cidade de Chicago, com prédios enormes e charmosos, e segundo, a quantidade de pessoas com faixas, gritando palavras de incentivo e acompanhando passo a passo algum corredor da família ou amigo.

Em média, havia um posto de hidratação a cada dois quilômetros, e a organização se fazia sentir nos mínimos detalhes. Em cada posto de hidratação, havia gatorade e água. Os voluntários distribuíam os copinhos (pela metade) servindo os corredores. Hidratei-me em cada posto de água e procurei não tomar a bebida correndo. Dava uma pequena caminhada, tomava gatorade, depois pegava água, tomava e voltava a correr. Fiz isso em todos os postos e, em alguns, tomei gel e/ou thermolyte.

Corri os primeiros cinco quilômetros em 27:18, num ritmo de 05:28/km. Era exatamente o que eu queria fazer, começar bem mais leve. Em seguida, comecei a sentir mais confiança e passei pelo Km 10 com o tempo de 53:44, baixando o ritmo para 05:22/km. Procurei manter esse ritmo e concluí a meia-maratona em 01:52:58 (cinco minutos mais rápido do que a primeira meia-maratona que fiz em 2006, no Rio de Janeiro) e com um ritmo médio de 05:21/km.

Depois da meia-maratona, comecei a sentir um pouco a panturrilha direita. Nesse momento, precisei ter muita calma. Eu estava com um tempo muito bom e sabia que ele era bem melhor do que meu objetivo. Resolvi, então, fazer meu primeiro “pit stop”. Parei no primeiro posto de hidratação, fui ao banheiro (estava super hidratado) e fiz alongamento das duas pernas.

Quando cheguei no Km 25, devido a essa parada, meu ritmo médio foi para 05:26/km, e entre os quilômetros 20 e 25, mantive um ritmo de 05:47/km. Para mim, esse “pit stop” foi fundamental, pois, naquele momento, respeitei o limite do meu corpo. Poderia ter forçado e continuado e, quem sabe, no km 30, não tivesse condições de continuar a correr. Além disso, começou a ficar muito quente. Parecia que estava correndo na Beira-Mar em Fortaleza, às 10h da manhã.

Cheguei ao famoso km 30 com o tempo de 02:43:14 e num ritmo médio de 05:26/km. Ainda sentia um pouco a panturrilha, mas procurei manter o ritmo de 05:30/km. Nesse momento, a gente começa a ver pessoas caminhando. Dá vontade de caminhar também, mas a força de vontade é determinante nessa hora: é pensar positivamente que se está bem e que se vai manter o ritmo. Foi o que fiz. Passava por diversos brasileiros no caminho e falava: “vamos lá, está bem perto!”. Após o km 30, começou a surgir o cansaço. Nesse momento, procurei dar uma boa caminhada num posto de água para recuperar as energias.

Ao chegar ao km 35, estava com o tempo de 03:12:19 e meu ritmo médio já era de 05:31/km. Nesse ponto, o fator emocional vale muito mais do que o físico. A gente tem realmente que se superar e, para isso, mantive o rimo até o km 40. Nesses cinco quilômetros, alguns fatos interessantes aconteceram: o primeiro foi sentir o quanto o público incentivava cada vez mais o participante a terminar a prova. Lembro-me de um policial distribuindo garrafinhas de água mineral. Pedi uma, que usei para me refrescar (tomei literalmente um banho de água mineral). O segundo fato foi que avistei um grupo de jovens, no km 39, tomando umas cervejinhas e oferecendo uns copinhos da bebida (como se fosse hidratação) para os corredores. Achei interessante e me imaginei, ao final da prova, também tomando a minha geladinha.

Cheguei ao Km 40 no mesmo ritmo do Km 35. Só faltavam dois quilômetros e 195 metros. Nesse momento, comecei a sentir mais dores nas pernas. Doía tudo, panturrilhas, coxas, joelho, etc., mas estava tão deslumbrado com o final da corrida, que nem me preocupava com as dores, apenas pensava em chegar. O público continuava incentivando e, nos últimos duzentos metros, passei a avistar a linha de chegada. Cheguei super emocionado, pensei muito na minha família, na minha mãe (in memoriam) e em todos aqueles que contribuíram direta e indiretamente para que eu estivesse ali, concretizando um sonho. Realmente, tive a sensação de que aquilo ia mudar a minha vida para sempre. Hoje, posso afirmar que nada é impossível, que podemos conquistar os sonhos e superar os desafios, mas, é claro, temos que ter dedicação, apoio e principalmente força de vontade.

O apoio da minha esposa nessa caminhada foi fundamental, pois deixei, muitas vezes, de ajudá-la nas tarefas do dia-a-dia e com as crianças, para treinar. Lembro dos treinos longos nas manhãs de domingo, quando deixávamos de passear porque eu tinha que treinar. E eram realmente treinos longos. Saía de casa às 7h30 e só retornava por volta das 12h30. Valeu, Lu, esta medalha é para você.

Segue abaixo o percurso que fiz em Chicago: 




Eis o resultado oficial:
Clock Time 3:58:31
Chip Time 3:53:39
Overall Place 5130 / 31347
Gender Place 3947 / 17679
Division Place 761 / 31347
Net 5K 0:27:18
Net 10K 0:53:44
Net 15K 1:19:58
Net 20K 1:46:59
Net Half 1:52:58
Net 25K 2:15:54
Net 30K 2:43:14
Net 35K 3:12:19
Net 40K 3:40:37

Para finalizar, gostaria de relembrar duas frases que tenho guardadas na minha mesa, do empresário Abílio Diniz:
"Cuide de seu corpo: você mora nele."
"O desafio de correr não é querer realizar coisa que ninguém jamais fez antes; mas, sim, continuar a fazer coisas que qualquer um pode fazer, mas que a maioria jamais fará".

Realmente, qualquer um pode correr uma maratona, mas a maioria jamais o fará. Espero que mais amigos corredores tenham a oportunidade que tive de concretizar esse sonho. Agradeço a todos que contribuíram (e contribuem), direta e indiretamente, para que eu esteja com esse novo estilo de vida.

Agradeço à STARK, a todos os instrutores e, em especial, ao João e à Tamara, pelas dicas e palavras de incentivo. Ao meu amigo e sócio Alexandre Menezes, por ter-me incentivado a começar na STARK.

Aos meus colegas de treino (que são pessoas sensacionais), pelo estímulo e camaradagem. Infelizmente, por estar morando no Canadá, não tive a companhia dos colegas de treino da STARK durante o treino para a maratona, mas queria expressar que senti muitas saudades dos treinos em Fortaleza.

Aos meus amigos de corrida canadenses, pela companhia, pela água (um dos corredores deixava garrafinhas de água na metade dos longões), dicas e palavras de incentivos. Queria fazer um registro especial ao meu amigo Paul que, além de providenciar a água, me deu inúmeras dicas sobre a cultura e o povo canadense.

À Dra. Ana Cristina, pelas dicas de nutrição que foram fundamentais para essa minha conquista.

Aos meus pais (in memoriam) que, tenho certeza, estariam orgulhosos de mim. Minha mãe sempre dizia: "Navegar é preciso, viver não é preciso"... Continuo navegando e a minha vida é uma conseqüência disso.

Aos meus familiares (irmãos, tios, parentes), por todo apoio, motivação e ajuda em todos os momentos dessa minha pequena trajetória.

Aos meus sogros, por sempre cuidarem com o maior carinho dos meus filhos e, principalmente, pelo apoio que dão com as crianças, para que eu possa participar de diversas corridas. Nesse momento, tenho que registrar o apoio da minha sogra, no início da nossa viagem ao Canadá, pois sua ajuda foi muito importante para apoiar a Luciana e toda a família no começo da nossa jornada.

Ao meu cunhado Wander, companheiro de treino, pelos incentivos e força.

À minha esposa Luciana, pela compreensão e apoio, pois realmente foi muito difícil para ela morar num país estrangeiro, ter inúmeras atividades e ainda me incentivar sempre a treinar e a lutar para que eu pudesse atingir meu objetivo. No passado, eu tinha dito que, quando as crianças ficassem maiores, ela treinaria comigo na STARK. Bom, hoje ela já treina na STARK e quem sabe em 2009 já corre sua primeira meia-maratona no Rio de Janeiro.

Aos meus filhos, futuros atletas, desejo que vejam na minha atividade esportiva uma fonte de estímulo, para que também tenham uma vida esportiva e saudável.

E, para concluir, gostaria de dizer que tudo é possível se há dedicação, vontade, disciplina e, principalmente, prazer em fazer algo bem feito.

"Se você quer vencer algo ou simplesmente correr, corra os 100 metros. Se você quer uma experiência nova, um novo estilo de vida, corra a maratona.(Emil Zatopek)